A inclusão dos riscos psicossociais no escopo da NR-1 marcou uma mudança relevante na forma como as empresas precisam enxergar a organização do trabalho.
Mais do que um novo conceito, os riscos psicossociais exigem uma mudança de perspectiva: o foco não está em comportamentos individuais ou percepções subjetivas, mas nas condições concretas em que o trabalho é estruturado e executado.
A seguir, entenda o que eles são, as diferenças em relação aos riscos ergonômicos, o que a NR-1 determina sobre o tema e como identificar, na prática, sinais que indicam exposição a esse tipo de risco.
O que são os riscos psicossociais?
Os riscos psicossociais são fatores associados à organização do trabalho que afetam a saúde mental, emocional e social das pessoas.
Assim, eles surgem da forma como as atividades são distribuídas, do controle do tempo, da previsibilidade da rotina e da qualidade das relações profissionais.
Do ponto de vista da legislação, o foco está no risco criado pelo trabalho em si. A análise recai sobre processos, metas, controles e fluxos, e não sobre a capacidade individual de adaptação.
Qual a diferença entre riscos psicossociais e riscos ergonômicos?
A diferença entre riscos psicossociais e riscos ergonômicos está no ponto de origem do risco e no tipo de decisão organizacional envolvida, embora ambos possam ocorrer ao mesmo tempo.
Os riscos psicossociais surgem da forma como o trabalho é organizado e gerenciado. Eles estão ligados à jornada, às escalas, ao uso recorrente de horas extras, ao banco de horas, ao controle de ponto, aos atrasos e à previsibilidade da rotina.
Quando esses elementos não são bem estruturados, aumentam a exposição ao estresse ocupacional, à exaustão mental e à sobrecarga emocional.
Já os riscos ergonômicos estão relacionados à execução da atividade em si. O foco está no posto de trabalho, no esforço físico, na postura, no ritmo operacional e na adequação dos equipamentos.
Nesse caso, os impactos mais comuns aparecem como fadiga física, dores musculoesqueléticas e redução da capacidade funcional.
Veja uma tabela comparativa:
| Critério | Riscos psicossociais | Riscos ergonômicos |
| Origem do risco | Forma como o trabalho é organizado, gerido e controlado | Forma como a atividade é executada fisicamente e cognitivamente |
| Foco da análise | Organização do trabalho e gestão do tempo | Posto de trabalho, tarefa e esforço físico |
| Principais causas | Jornada excessiva, escalas instáveis, horas extras recorrentes, banco de horas mal gerido, pressão por metas | Postura inadequada, esforço repetitivo, ritmo intenso, mobiliário inadequado |
| Relação com jornada | Direta: duração, previsibilidade, intervalos e pausas | Indireta: esforço físico ao longo da jornada |
| Exemplos práticos | Falta de intervalos, atrasos frequentes, controle de ponto inconsistente, cobrança contínua | Dores lombares, LER/DORT, fadiga muscular |
| Tipo de impacto | Estresse ocupacional, exaustão mental, ansiedade, queda de desempenho | Lesões musculoesqueléticas, fadiga física |
| Indicadores usados pelo RH | Horas extras, banco de horas, escalas, atrasos, analytics de jornada | Laudos ergonômicos, observação da atividade, AET |
| Enquadramento normativo | NR-1 (GRO) integrada à NR-17 | NR-17 (Ergonomia) integrada à NR-1 |
| Forma de prevenção | Revisão da organização do trabalho e da jornada | Adequação do posto e da execução da tarefa |
| Natureza do risco | Organizacional e estrutural | Física e biomecânica |
O que a NR-1 diz sobre riscos psicossociais?
A NR-1 determina que os riscos psicossociais relacionados ao trabalho devem integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), com identificação, avaliação e controle formais.
A própria norma estabelece que o GRO deve abranger:
“os riscos decorrentes de agentes físicos, químicos e biológicos, acidentes e os riscos relacionados aos fatores ergonômicos, incluindo os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho”
(NR-1, subitem 1.5.3.1.4)
Além disso, a NR-1 reforça a integração com a NR-17, ao reconhecer que os riscos psicossociais estão diretamente ligados à organização do trabalho, um dos eixos centrais da ergonomia.
Quais são os riscos psicossociais da NR-1?
A NR-1 não traz um rol fechado de riscos psicossociais, mas define que eles são perigos decorrentes de problemas na concepção, organização e gestão do trabalho, capazes de gerar efeitos à saúde em nível psicológico, físico e social.
Entre os principais fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho, destacam-se:
- Práticas de assédio ou condutas abusivas;
- Processos de mudança mal conduzidos;
- Falta de definição clara de responsabilidades;
- Ausência de reconhecimento ou retorno sobre o trabalho realizado;
- Baixo nível de suporte organizacional;
- Restrição de autonomia;
- Percepção de injustiça organizacional;
- Exposição a situações violentas ou experiências traumáticas;
- Subutilização das capacidades;
- Sobrecarga contínua de trabalho;
- Relações interpessoais deterioradas;
- Ambientes com comunicação limitada ou ineficiente;
- Atividades realizadas de forma remota e isolada.
Esses fatores devem ser identificados e avaliados com base nas condições reais de trabalho, e não a partir de sintomas individuais.
Quando presentes, precisam constar no GRO, com registro no inventário de riscos e definição de medidas de prevenção.
Jornada excessiva é risco psicossocial?
Sim. A jornada excessiva pode configurar risco psicossocial quando deixa de ser uma exceção pontual e passa a refletir a forma como o trabalho é organizado.
A exposição ocorre, principalmente, quando há uso recorrente de horas extras, escalas extensas ou imprevisíveis, banco de horas acumulado sem compensação efetiva e intervalos não respeitados.
Esses elementos reduzem o tempo de recuperação, aumentam a carga mental e ampliam o estresse ocupacional ao longo do tempo.
A empresa é responsável por doenças mentais preexistentes ou só pelos riscos gerados no trabalho?
A responsabilidade da empresa está relacionada às condições em que o trabalho é realizado, e não à existência prévia de um transtorno mental.
A NR-1 orienta que o foco do gerenciamento de riscos ocupacionais deve estar na organização do trabalho, e não na avaliação clínica individual.
Quando a forma de estruturar atividades, distribuir demandas ou organizar o tempo de trabalho contribui para a sobrecarga ou para o agravamento de um quadro existente, pode haver responsabilização.
Por outro lado, se as atividades são planejadas com limites claros, previsibilidade e mecanismos adequados de acompanhamento, o risco jurídico tende a ser reduzido.
O home office ou trabalho remoto entra nos riscos psicossociais?
Não necessariamente. O trabalho remoto não é, por si só, um risco psicossocial. O que pode gerar risco são as condições oferecidas para a execução do trabalho.
Quando não há critérios claros para organização do tempo, definição de limites, comunicação adequada ou suporte ao trabalho remoto, podem surgir situações de sobrecarga, isolamento ou desgaste mental.
Por outro lado, quando as condições são bem estruturadas, com previsibilidade, autonomia equilibrada e acompanhamento adequado, o trabalho remoto não configura risco.
Riscos psicossociais precisam constar no GRO?
Sim. Quando identificados, os riscos psicossociais relacionados ao trabalho devem constar no GRO.
A NR-1 determina que o GRO abranja todos os riscos decorrentes da organização do trabalho. Isso inclui situações ligadas à jornada, escalas, distribuição de demandas e previsibilidade da rotina.
Se essas condições geram exposição contínua a sobrecarga ou desgaste mental, o risco precisa ser registrado e tratado.
Isso significa que os riscos psicossociais devem aparecer no inventário de riscos, com avaliação e definição de medidas preventivas. Não se trata de ações isoladas de clima ou bem-estar, mas de gestão estruturada, integrada à lógica do GRO.
Quem é responsável pelo gerenciamento dos riscos psicossociais?
A responsabilidade pelo gerenciamento dos riscos psicossociais é da organização. A NR-1 não atribui essa obrigação a um cargo ou área específica, mas à estrutura organizacional como um todo.
Assim, cabe à empresa definir quem conduz cada etapa do GRO, desde a identificação dos perigos até o acompanhamento das medidas de prevenção.
Isso envolve a alta administração, lideranças, áreas de gestão de pessoas e, quando existente, a estrutura de SST.
Quais indicadores de jornada mostram riscos psicossociais?
Os riscos psicossociais ligados à jornada podem ser identificados por meio de indicadores objetivos, extraídos da rotina de trabalho e dos registros operacionais.
Dessa forma, o foco não está em eventos isolados, mas em padrões recorrentes que revelam sobrecarga, falta de previsibilidade ou falhas na organização do tempo.
E alguns exemplos são:
- Horas extras frequentes;
- Saldo elevado e contínuo no banco de horas;
- Jornadas prolongadas;
- Intervalos não concedidos ou reduzidos;
- Escalas instáveis.
Quando analisados de forma integrada, esses dados permitem identificar se a jornada está sendo usada como solução estrutural para problemas de planejamento.
O uso de ferramentas de Analytics facilita a visualização desses padrões e apoia decisões preventivas dentro do GRO, antes que o desgaste se transforme em risco consolidado.
Qual a melhor forma de entender os riscos psicossociais?
A forma mais clara de entender os riscos psicossociais é analisar como o trabalho está sendo organizado na prática. E é nessa estrutura que surgem as evidências que hoje sustentam o ônus da prova exigido pela NR-1.
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FAQ
Riscos psicossociais são a mesma coisa que saúde mental?
Não. Riscos psicossociais dizem respeito às condições de trabalho, enquanto saúde mental envolve o estado individual.
A NR-1 não trata de diagnósticos, mas de prevenção a partir da organização do trabalho.
Toda empresa possui riscos psicossociais?
Não necessariamente. Assim como outros riscos ocupacionais, eles podem ou não estar presentes.
A existência só é confirmada após identificação e avaliação dentro do GRO, conforme a NR-1.
Jornada excessiva sempre caracteriza risco psicossocial?
Não em casos pontuais. O risco surge quando o excesso se torna recorrente e estrutural, como uso contínuo de horas extras, banco de horas acumulado e intervalos não respeitados.
Escalas mal planejadas entram como risco psicossocial?
Sim. Escalas instáveis, imprevisíveis ou constantemente alteradas aumentam a exposição ao estresse ocupacional e devem ser avaliadas dentro do GRO.
Quais dados ajudam a identificar riscos psicossociais?
Indicadores de jornada como horas extras recorrentes, banco de horas elevado, escalas instáveis, atrasos frequentes e intervalos não concedidos são sinais relevantes, especialmente quando analisados com apoio de analytics.



